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Dating : Deixe-me ir

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— Então é verdade? Sério? Quer dizer que ela estará lá?

— Talvez… por essas bandas a verdade é tão inútil quanto uma mentira e aquele lugar é meio estranho, não dá pra confiar em nada. Se eu fosse você, ficaria quieto.

Deixar sua cidade não foi fácil, sua última conversa ainda ecoava como uma fresca lembrança em um bar sujo e caído antes de partir. Sua vida não era lá das melhores, mas ele não tinha o que reclamar. Vivia na média, era alguém normal, esquecível na multidão, sem grandes pretensões, apenas levava um dia de cada vez.

Partir foi a decisão mais consciente que ele tomava em muito tempo. Levar uma vida ordinária não era de todo mal, mas também não era algo a se orgulhar. Ele sempre foi aquele tipo de pessoa que não tinha coragem de sair da sua zona de conforto, um personagem que todo mundo conhece, alheio ao que acontece, satisfeito com pouco e que vê no futuro uma insegurança que quer afastar. É até surpreendente que justo essa figura decidiu deixar sua entediante rotina e botar o pé na estrada.

Um dos seus novos prazeres era olhar o céu estrelado e viajar no contraste da escuridão e dos insignificantes pontos de luz, que juntos pareciam batalhar por um espaço. Era mais uma noite onde ele estava deitado ao lado de sua fogueira, sozinho em meio ao mato e aproveitando o seu passatempo.

O sol já nascia enquanto ele continuava a encarar o céu, só que dessa vez reparava nas leves camadas de cor que transformavam o preto em azul, passando por um alaranjado que sempre o agradava.

Ele não conseguiu dormir em nenhum momento, finalmente ele estava perto de onde queria. Faziam algumas semanas que ele tinha saído, para alguns foram férias, para outros simplesmente desapareceu. Mas a grande maioria não se importava.

Sua peregrinação era rumo como um cachorro perdido que é constantemente atraído pelo que chama sua atenção. Sua busca era simples, mas sua jornada obtusa. Caminhou sem rumo em busca de um rumor, uma história banal que pareceria mais um conto regional do que algo concreto. Mas era tudo que ele tinha, era o objetivo que o fez levantar a bunda do conformismo e fazer algo.

Aquela era a última vez que admirava as estrelas, estava convicto de que tinha chegado onde queria, que bastavam alguns metros para adentrar em um novo mundo. Se levantou com maestria de quem sente o corpo gritar de dor, mas vai se contorcendo para ficar de pé.

A luz do dia acariciava suas costas, a fogueira já tinha se transformado em cinzas e seu acampamento rudimentar ficaria ao aguardo de outro desgarrado.

Seu caminho foi tempestuoso, não no sentido literal, na verdade o lugar a sua volta não poderia parecer mais harmonioso, a natureza mostrava naquele cenário sua personalidade arrojada, bruta e que passava uma mensagem bem clara de dominância. Aquele andarilho se esgueirava pelo caminho como se fosse um intruso torcendo para não ser pego, mesmo sabendo que está sozinho. São momentos como esse que mostram como o homem é insignificante e ele entendeu o recado.

Sua jornada tinha uma meta, encontrar o lugar onde muitos diziam ser “mágico”, um espaço mítico que não fazia discrepância entre o real e o imaginário. Era uma daquelas zonas curiosas que vão além da imaginação.

Seu coração andava acelerado, a ansiedade era uma companheira constante que adorava apertar a mão em qualquer sinal de novidade, e ela agiu sem dó quando viu uma cratera no meio das rochas.

O lugar parecia dos mais ordinários, apenas uma fenda entre o tempo e espaço. Sua profundidade era incerta, sua iluminação difusa. Não dava para saber o que tinha lá dentro, mas ele sentia que estava no lugar certo. Não poupou tempo, amarrou uma corda em uma árvore próxima, uma robusta Aroeira com longas e grossas raízes. Desceu devagar com toda a inexperiência que tinha direito.

Deslizava centímetros de cada vez, sentia o ar ficar pesado na medida que adentrava naquele naquele novo mundo. Seus olhos foram se acostumando com a falta de luz, a escuridão deu lugar a um céu estrelado, onde as rachaduras faziam com que pequenos feixes se transformarem em pontos estrelados dentre as rochas.

Sua descida durou intermináveis segundos, um progresso lento que o colocava cada vez imerso no desconhecido. Foi até o máximo que sua corda permitia, mas não era o suficiente e seus pés ainda não alcançavam o chão. A única opção era se entregar a fé.

Para começar, jogou uma moeda que caiu sem grandes dificuldades, o som criou leves ondas que ecoaram em uma sinfonia tão baixa que quase não deu para perceber o barulho na água no impacto. Mas fora o suficiente para ele acreditar que seria o suficiente para amortecer sua queda.

Colocou os braços rente ao peito, arqueou as pernas e abraçou o medo, o frio na aumentava na mesma proporção que a velocidade o vento frio e veio como soco na hora em que se chocou com a água, um mergulho desajeitado e congelante foi seu cartão de boas-vindas.

Não conseguia distinguir o que era direita da esquerda, norte do sul e apenas nadou em linha reta na esperança de encontrar algo mais sólido do troncos podres.

A sua frente uma luz começava a emanar um ponto guia, ir em sua direção era a única opção e quanto mais se aproximava sentia o chão surgir entre seus pés. Aos poucos ele passou a se levantar e a clarão a se concretizar.

Sua caminhada o levou para um novo luar, um corredor vago que estendia de forma irreal, ao final uma única porta o aguardava. As paredes pareciam comportar outra realidade, com vozes, aparelhos quebrando o silêncio e o colocando em um lugar muito familiar.

Sua jornada foi lenta, seu fim doloroso. Ele sabia bem o que encontrava atrás daquela porta e por isso girou a maçaneta devagar, remediando o inevitável, mas nem todo o tempo do mundo poderia tirar aquela imagem de sua mente.

Um único boxe o aguardava, o lugar parecia não existir, era apenas uma longa extensão do imaterial que queria dar toda a atenção para aquele momento.

Colocou a superfície externa de sua mão na cortina, sentiu a grossura do tecido, respirou fundo, pois sabia quem estava do outro lado, moveu a mão com todo o esforço do mundo. A cortina se moveu devagar, propagando o som do metal arranhando enquanto o trilho guiava o tecido para outro lugar.

A sua frente estava um corpo coberto por um lençol, a silhueta era familiar, as feições inesquecíveis. A pele branca já estava arroxeada e aquele rosto expressava o mais pálido dos sentimentos.

Era difícil reviver esse momento, sua reação foi fechar os olhos, não como quem quer ignorar, mas como alguém quer conter as lágrimas. Suas pernas perderam as forças, sua presença se encolheu e ele sucumbiu em sua própria existência. Sentia em suas mãos o frio do mármore, suas lágrimas percorriam o rosto e criavam ranhuras em sua alma.

Ele chorou e reviveu cada sentimentos do passado. Questionava suas próprias decisões e acreditava que não merecia um futuro. A única coisa que poderia fazer era abrir os olhos, olhar mais uma vez para o seu passado, mas nem isso lhe foi permitido. O mármore deu lugar as pedras, o branco a escuridão e suas pálpebras revelaram um altar no centro da caverna, rodeado por velas e restos.

O altar monopolizava qualquer olhar, um ídolo egoísta que sabia de sua magnitude, que emanava uma energia de deslumbre. Sua forma era estranhamente normal, em um certo ângulo parecia uma forma humana, mas era só olhar com mais atenção para ver que os traços não eram naturais, o rosto era muito simétrico e a figura se fundia com as ranhuras a sua volta. A sua base, cercada de velas, parecia uma árvore que usava suas raízes para tocar tudo e todos.

As velas criavam um tapete de chamas e representavam todos aqueles que entraram na mesma jornada que ele. Os rastros de visitantes estavam por todo o lugar, parecia que muitos foram até lá, mas poucos saíram.

— Como eu vou fazer isso… — Murmurou para si mesmo.

— Oi… Por favor, me ajude… — Falou com os olhos vidrados na estátua com a esperança que algo aconteça.

Nada aconteceu.

— Eu sei que muitos já tentaram isso, mas eu preciso mesmo que você apareça. Não quero nada demais.

Se ajoelhou como um homem penitente a Deus, usou sua fé como muleta para guiar sua palavras.

— Tentei seguir em frente, juro que tentei. Mas nada faz sentido, não consigo aceitar que isso aconteceu, não consigo viver sabendo que não tive a escolha de ficar no seu lugar.

— Só quero revê-la e tô disposto a pagar com o que você quiser.

Nada aconteceu.

Se calou e sucumbiu ao silêncio. Arqueou o corpo rente ao chão, abraçando a derrota de ser tão imponente que nem sua própria vida valia algo.

— Deveria ter sido eu. — Murmurou sua última frase como se coloca-se o último prego no caixão.

— Tudo tem um preço. — Exclamou a pálida voz que parecia uma criança que aprendia a dar suas primeiras palavras.

Uma névoa adentra o lugar, o lago se tornar um mar e a caverna se expande para a escuridão do infinito.

Uma canoa se aproximava, guiada por um solitário pescador, um ser nebuloso que emanava um dos mais frios sentimentos, a solidão. Veio sem pressa, remava com delicadeza, como um dançarino saturado por uma coreografia que era obrigado a fazer por toda a eternidade.

— Tudo tem um preço. — Repetiu o pescador enquanto se aproximava. Sua voz era baixa e a névoa se encarregou de entregar a mensagem, dando uma ajuda para o som percorrer o caminho que falta.

O homem levantou a cabeça com convicção, recebeu a mensagem e pela primeira vez agiu como um ser imponente, confiante quanto a sua sentença. Empoderado pela possibilidade de realizar um último sonho, poder voltar no tempo e ocupar o papel que ele considerava ser seu direito.

— Estou disposto a pagá-lo. — Respondeu em um confiante para o nada.

Ficou às margens do lago à espera de sua viagem. O contato já era inevitável, míseros metros os separavam e ambos esticaram os braços como pontos que querem reconectar os laços.

Os minutos pareciam agoniados com o que estava por acontecer, não queriam colaborar e seguraram a barra ao máximo para se transformarem em horas na esperança de algo intervir. Mas isso parecia não vir. Faltavam centímetros para aquele encontro, para o preço ser cobrado.

O rapaz desviou o olhar por um instante, fraquejou daquela hipnótica experiência e encontrou seu reflexo na água. Seu rosto já não emanava as mesmas feições exóticas e nem o tom vivido, mas suave da terra nos cerca. Ele estava indo e esperava que seu lugar fosse preenchido.

Da água no entanto surge uma mão, acompanhada de um movimento feroz que rompe a escuridão daquele líquido espesso e o puxa para as camadas mais profundas da escuridão. Se debater não adiantava, a força era além da humana, o toque no entanto era além do familiar.

Sentiu o frio da água se transformar no calor de um abraço, no aperto de alguém amado. Aquela era a sua redenção, a sua mensagem sem interlocutor, o seu aviso sem destino, a sua saída para um recomeço.

Afundou em paz e fechou os olhos. O ar já não importava, a busca se fragmentava enquanto as profundezas se formavam.

— Não fique preso ao passado, não fique preso a minha imagem. Estarei com você enquanto viver. Me deixe ir e vá se encontrar.

Na escuridão não dá para saber quem fala com você.

O rapaz acordou assustado como se recobra-se a consciência, como se ressurgisse de um longo sono e sentisse no peso do tempo emanar sobre seu corpo. O fogo esquentava seu corpo, o ar frio agitava seus pulmões e a natureza em seu coração.

As estrelas permaneciam no mesmo lugar e brilhavam felizes pelo retorno daquele anônimo admirador. Mas dessa vez ele não as vê como pontos que lutam por atenção, seus olhos agora sentem como elas mostram que sempre há luz em meio a escuridão.

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